terça-feira, 17 de outubro de 2017

Incêndios 2.0



Lembram-se o que jornalistas e colunistas de todo o mundo ocidental, escreveram vezes sem conta, depois da vitória de Donald Trump? Que aqueles votos vinham da América profunda e que o grosso dos eleitores das grandes metrópoles jamais teria votado nele? Ninguém o disse categoricamente mas não consegui imaginar outro entendimento que não este: a opinião da população urbana importa mais que a da rural. Será que a vida de quem está na capital também vale mais que a de quem habita o interior? Ou por outra, será que estamos genuinamente preocupados com cada uma das vítimas dos incêndios? Ou sentimos apenas que 40 mais 60 são 100 e que – foda-se... – 100 é um número demasiado grande para olhar para o outro lado? As vítimas (mortos, feridos, desalojados, traumatizados) de Figueiró a Santa Comba têm pouca ou nenhuma voz. Não foram as mortes mas os números totais que elas perfizeram que tocaram o coração do país, geraram as ondas de solidariedade e cativaram os media. Porque estas pessoas – as que morreram agora, as que morreram em Verões passados e aquelas que vão morrer nos próximos anos – são quase sempre as mesmas: bombeiros e velhotes. Reportagens em Pedrógão mostram-nos idosos chorosos, às vezes ranhosos, desprovidos de capacidade de mobilização, destreza verbal ou telegenia. Será que sentimos realmente por eles? Será que sentimos por aqueles que, mais ou menos velhos, morreram em casa, nos carros, na rua, asfixiados e queimados? E por todos aqueles a quem, sobrevivendo, só restou chorar por quem já não puderam abraçar? À excepção do impacto brutal que uma centena de vítimas tem sobre todos, cada uma daquelas mortes pouco importa. Não geram por si mesmo dislikes, partilhas e notícias em escala que ponham um governo ou uma opinião pública em sentido. Onde é que está o Estado Social? No Facebook? E o nosso coração? A nossa formação, educação e cultura? No meu liceu havia dois bombeiros. Dois miúdos que costumavam ir fardados para a escola porque faziam parte do Regimento de Voluntários que havia ali ao lado. A farda não lhes granjeava reputação ou miúdas giras. Eram, na verdade... menos-cool-que-os-demais. Até Agosto de 2013, quando morreram 8 bombeiros em Agosto e foram aclamados heróis nacionais, o país inteiro parecia também... dar-lhes menos valor que aos demais.

Tinha cagado no Orçamento, no Sócrates e na Catalunha. Mas também eu fui sensível... aos números. Se os actores políticos (independentemente da sua cor) trabalhassem em função de outra coisa que não votos, talvez António Costa tivesse dito (e sentido o que disse) “depois deste ano nada pode ficar como dantes” em 2005 quando, Ministro (de Estado e) da Administração Interna, se registaram mais de 8.000 incêndios florestais, quase 350.000 hectares ardidos e 16 mortos (12 dos quais bombeiros). Mas se calhar nenhum de nós lhe exigiu isso. Se calhar nenhum de nós se esforçou, como aparentemente se esforçaram na Galiza, para lhe exigir isso mesmo

domingo, 6 de agosto de 2017

domingo, 21 de maio de 2017