segunda-feira, 3 de novembro de 2014

J. LISBON

J. LISBON

A verdade é que nem sei por onde começar. Acho que posso começar por dizer que não encontrei o João nesta vereda. Ou que ele não levava esta roupa vestida. Que fui eu quem lhe pediu que aparecesse antes que o sol se fosse, e que também fui eu quem lhe levou este casaco, estas calças e este par de botas. Numa altura em que tanta gente se questiona sobre a permeabilidade das publicações editoriais às dinâmicas comerciais, achei que era interessante esboçar a narrativa contrária. Meti na cabeça que haveria de criar um espaço comercial onde quem quer que lá passasse se arriscaria a encontrar conteúdos genuínos e informativos. Meti na cabeça que haveria de gerir uma loja sem esquecer a forma como geri este blogue.

Andei por sítios tão distintos quanto Madrid, Londres, Florença, Felgueiras, Vila Nova de Famalicão ou Charneca do Lumiar. Encontrei imagens deste blogue nos mood boards de marcas estrangeiras (onde as reuniões nem correram mal) mas também apanhei baldas e palmadinhas nas costas (depois de reuniões que não correram tão bem). E hoje, no preciso dia em que sacrifico a pureza editorial deste blogue, em prol do negócio cuja criação não seria possível sem o blogue que hoje se sacrifica por ele, apresento-vos o negócio que não poderia existir sem este blogue. Porque afinal, são frases idiotas como esta que poderão continuar a encontrar no tal negócio. Porque afinal, à semelhança daqui, encontrarão por lá ruas de Lisboa, modelos que não são modelos, produções caseiras e imagens por editar. E, de uma forma geral, a identidade visual que ficou imortalizada por esse universo de retratos aos quais se convencionou chamar street style. O registo visual que, à boleia de toda uma dinâmica online, transformou homens comuns em ícones de estilo e fez de retratos da vida quotidiana inspirações à escala global.

É apenas isto. Uma loja de roupa. Uma loja de roupa de homem. Uma loja de roupa que, à boleia destes 5 anos de Alfaiate, se deu conta que é possível oferecer uma real experiência de produto através da internet. Que é possível esboçar um processo online de descoberta do produto que não termine com a imagem de um tipo de medidas estandardizadas e cabeça cortada, fotografado contra uma parede em tom pastel. Que é possível descobrir um produto pelos mesmos padrões e contextos visuais em que haveremos de conviver com ele. Que é possível ler um review escrito por alguém que, muito antes de se sentar a debitar informação sobre um produto, o tenha calçado ou vestido. E que é possível assegurar o controle de tudo isto desde que me cinja à realidade masculina. Tanto assim é que, antes de assegurar a sua venda, comprei o casaco que o João leva vestido ao designer que o concebeu. Tanto assim é que, antes de sonhar escrever este blogue, já usava aquelas calças. É por isso que digo que olho para este negócio como se fosse o Alfaiate. O blogue que inspirou um negócio. Um negócio que se chama J. LISBON. Um negócio que espero que seja do vosso agrado. Porque, por mais que esteja convencido do seu interesse (e este blogue ajudou-me a perceber que a aprovação mais importante somos nós mesmos que a atribuímos) não há lengalenga que pague umas boas palmadas nas costas. Fica aqui o J. LISBON em primeira mão